O sindicalismo nos EUA

A trajetória do sindicalismo de negócios nos Estados Unidos

Augusto Buonicore *


 “O capitalismo não é menos necessário ao sindicalismo livre do que a água é para o peixe.” A frase de Davi Dubinsky, dirigente da AFL-CIO, expressa bem a concepção que há muito predomina no movimento sindical dos Estados Unidos.

 

Neste terceiro artigo sobre a história do sindicalismo internacional, publicado originalmente na revista Debate Sindical em 1994, o autor apresenta os momentos marcantes da trajetória do sindicalismo estadunidense desde o final do século 19 até a década de 1990 do século 20, demonstrando os efeitos nefastos produzidos pelo chamado “sindicalismo de negócios” na organização e consciência dos trabalhadores daquele país.


Os Nobres Cavaleiros do Trabalho

 

A Nobre Ordem dos Cavaleiros do Trabalho

Após a Guerra Civil (1861-1865) houve um acentuado avanço do capitalismo nos Estados Unidos. Em 1894 o país já ocupava o primeiro lugar entre as nações mais industrializadas do mundo. A expansão industrial e a concentração de operários em grandes cidades criaram as condições para o desenvolvimento dos sindicatos. Em 1869, um grupo de alfaiates, liderados pelo ex-pastor e ex-líder abolicionista Uriah Stephens, fundou a Nobre Ordem dos Cavaleiros do Trabalho. O programa dos Cavaleiros, que se propunha a ser uma organização secreta, estava impregnado pelas concepções dos socialistas utópicos e pelo reformismo pequeno-burguês. “Não tencionamos que haja nenhum antagonismo contra o capital necessário. Apoiaremos as leis que trouxerem harmonia entre os interesses dos trabalhadores e dos capitalistas e também as leis que tendam a fazer mais leve a labuta dos que trabalham”, dizia ele (1). Essa Nova Ordem defendia um projeto de nova sociedade assentada nas cooperativas de produção e consumo.

Em 1879, Terence Powderly assumiu o posto de Grão-Mestre da organização. Dois anos depois a Ordem dos Cavaleiros do Trabalho deixou de ser secreta e rompeu com o seu caráter de seita. Em pouco tempo teria mais de 500 mil filiados, entre eles 15% eram negros. Algo novo no sindicalismo daquele país. Mas os seus principais líderes continuaram resistindo à utilização de métodos mais radicais de luta. Powderly chegou a afirmar: “As greves são deploráveis e seus efeitos são contrários aos mais altos interesses da Ordem. Estremeço só em pensar em greve.” (2). A Ordem dos Cavaleiros do Trabalho chegou ao auge de sua força em 1886. Perseguida pelo governo e pelos patrões, passando a sofrer forte concorrência de uma nova central que surgia, a Ordem conheceria um rápido declínio.

AFL nasce corporativista e não se propõe a questionar a “escravidão assalariada”

No ano de 1886, um grupo de entidades operárias locais, que se agrupava na frágil Federação dos Sindicatos Profissionais, criou uma nova central: a Federação Americana do Trabalho (AFL, sigla em inglês). A sua presidência foi entregue a Samuel Gompers. A AFL se distinguia da Ordem dos Cavaleiros em alguns pontos. Ela era pragmática, não possuía nenhum projeto de sociedade futura e nem pretendia 

Samuel Gompers

questionar ou superar a “escravidão assalariada”. Seu slogan era “uma boa diária para um bom dia de trabalho.”.

Gompers, em nome do “sindicalismo puro”, lutou contra as correntes socialistas que queriam transformar a AFL numa central de caráter anticapitalista. Ele também se posicionou contra a formação de qualquer partido operário e socialista e pregou trabalhar dentro dos partidos burgueses existentes. Os seus dirigentes rejeitavam categoricamente a ideia de organizar os trabalhadores desqualificados, constituindo apenas sindicatos por ofícios e não de indústria. Este desprezo pode ser constatado na declaração de um dos líderes da AFL: “Não queremos admitir como membros os rebotalhos, os que não prestam para nada.” (3).

A exclusão dos chamados nãoqualificados, na prática, significava também a exclusão dos trabalhadores negros. Vários sindicatos vinculados a AFL estavam impregnados pela ideologia da supremacia branca, hegemônica na sociedade norte-americana, e possuíam clausulas discriminatórias nos seus estatutos. Por isso, no início do século 20, os negros representavam menos de 3% dos sindicalizados.  

Apesar dos limites impostos pela ideologia conservadora da AFL, os sindicatos travaram duras batalhas para conquistar alguns direitos sociais. Em muitos aspectos, as lutas nos EUA foram mais encarniçadas e cruéis do que as ocorridas na Europa. Além disso, nem todos os sindicalistas concordavam com a linha pragmática da AFL. Em 1905 foi criada a entidade Industrial Workers of World (Trabalhadores da Indústria do Mundo, IWW, na sigla em inglês). Entre seus fundadores se encontravam os socialistas, como os líderes dos ferroviários Eugene Debs, De Leon e Bill Haywood.

A IWW propôs a construção de um sindicalismo classista, rejeitou o corporativismo elitista da AFL e defendeu a organização por indústria e não por ofícios. O seu programa dizia que “a classe trabalhadora e a classe dos empregadores não têm nada em comum. Entre elas deverá haver uma luta até que os trabalhadores de todo o mundo se organizem em uma só classe e se apossem de todas as terras e máquinas para a produção (…). Em vez do lema conservador ‘uma boa diária para um bom dia de trabalho’, devemos imprimir em nossa bandeira as palavras revolucionárias: abolição do sistema de salários.” (4).


No período, a luta entre socialistas e anarquistas ganhou corpo dentro da IWW, levando a uma cisão em 1908. Mesmo assim, ela ainda conduziu uma grande campanha contra a guerra imperialista iniciada em 1914. Tal atitude lhe custou dura perseguição governamental, especialmente depois do ingresso dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. Em 1918, mais de 100 dirigentes foram presos e acusados de conspiração.

Outra característica da IWW, que a diferenciava do AFL, era sua relação com a massa de trabalhadores negros. Ela combateu a ideologia da supremacia branca imperante no movimento sindical – acusando-a de estar a serviço dos patrões – e procurou unir brancos e negros numa mesma organização. Um de seus dirigentes nacionais era o sindicalista afro-americano Bem Fletcher. Contudo, a IWW assumiu posições cada vez mais estreitas e sectárias, caindo no isolamento. Em meados da década de 1920, praticamente, deixou de existir.

Empresas financiam milícias e criam outros obstáculos para conter avanço operário 
 
Sindicalistas enfrentam milícias privadas durante greve


A burguesia não assistiu passivamente ao crescimento do movimento operário. Ela formou suas associações e investiu na formação de milícias particulares visando a combater a ação dos sindicatos. Durante as greves, as portas das fábricas se transformam em verdadeiros campos de batalha, com mortos e feridos. Os patrões estabeleceram como critério de contratação a não filiação do operário a nenhum sindicato. Essa fórmula, conhecida por “Yellow dog”, seria um obstáculo ao crescimento dos sindicatos.

Quando a intimidação e a violência privada não funcionavam, o patronato apelava ao poder judiciário. O Congresso estadunidense havia aprovado, em 1890, a lei Sherman, antitruste, que não seria eficiente para deter a monopolização da economia, mas serviria como uma luva para dificultar a ação dos sindicatos. Um exemplo disto ocorreu quando os ferroviários pararam em solidariedade aos trabalhadores da Pullman. Os tribunais consideraram a greve uma conspiração ilegal e uma violação à lei antitruste. Expediram mandados proibindo os sindicatos de fazer greve no setor ferroviário interestadual. Eugene Debs e outros líderes grevistas foram presos por desacato (5).

A pressão do governo e dos tribunais fez com que a AFL passasse a intervir mais nas eleições parlamentares. Contudo, sua postura não seria de fundar ou incorporar-se aos partidos operários e socialistas, como ocorreu na Europa. Preferiu trabalhar nos marcos dos partidos burgueses existentes, seguindo a linha de Gompers que apregoava “punir os inimigos e recompensar os amigos”. Ou seja, votar nos candidatos que apoiassem os sindicatos no executivo ou no parlamento, independentemente do partido ao qual pertencessem.

Em 1908, a AFL solicitou aos dois grandes partidos estadunidenses, o Republicano e o Democrata, que apresentassem emendas à lei antitruste excluindo explicitamente a ação sindical. O Partido Republicano não só não aceitou como indicou um notório inimigo dos sindicatos à presidência da República. Os democratas atenderam à solicitação e, em troca, receberam o apoio da AFL. Derrotados em 1908, os democratas venceriam as eleições de 1912. O novo presidente, Woodrow Wilson, criaria o Ministério do Trabalho, indicando um sindicalista para ocupá-lo.

No seu mandato foi aprovada a lei Clayton, estabelecendo que “a lei contra os trustes não poderia ser interpretada a fim de atingir organizações criadas em função do auxílio mútuo, que não possui capital-ação e nem eram conduzidas segundo o espírito do lucro, e nem poderia impedir os membros dessas organizações de cumprir legalmente os seus legítimos objetivos.” (6). A nova lei foi recebida por Gompers como a “carta magna do trabalho”. Mas todo este entusiasmo não se justificava. Nos 24 anos que se seguiram ocorreram mais processos contra os sindicalistas do que nos anos posteriores à lei Sherman (7).

Durante a Primeira Guerra Mundial, sindicalismo aumenta seus vínculos com a burguesia

Escritório da IWW atacada nos Raids de Palmer


Ao contrário da IWW, a AFL apoiou decididamente os esforços belicistas do imperialismo estadunidense durante a Primeira Guerra Mundial. Andrew Furuseth, presidente do Sindicato dos Marítimos, expressaria bem a ideologia pragmática da AFL ao afirmar: “mostrando que o trabalho é patriótico, os sindicatos podem impedir retrocessos para os trabalhadores durante a guerra. Se os sindicatos dessem ao governo um cheque em branco com relação às questões de política externa, obteriam melhor tratamento quanto às questões domésticas.” (8).

A AFL se expandiu no período graças ao aumento do nível de emprego decorrente da guerra. Gompers participou numa das muitas comissões governamentais que visavam a enquadrar a classe operária dentro dos esforços de guerra. O governo federal passou a incentivar negociações e contratações coletivas. Entre 1917 e 1920, o número dos sindicalizados subiu de 3 milhões para 5,1 milhões (9). Isso ocorria em meio a uma forte repressão contra a esquerda socialista, comunista e anarquista.

O patronato incorporaria no seu arsenal uma nova arma — o Sindicato de Empresa (Company Union), buscando pulverizar o sindicalismo. As milícias privadas também se tornariam mais ousadas, promovendo constantes espancamentos de operários. Em 2 de janeiro de 1920, o procurador-geral dos Estados Unidos, Mitchell Palmer, ordenou a invasão de centenas de lares e locais de reunião e prendeu mais de seis mil pessoas. Milhares seriam acusados e condenados por conspiração objetivando a derrubada do governo.

Se o crescimento econômico dos anos de guerra não trouxe grandes benefícios aos trabalhadores, a crise de 1929 foi-lhes fatal. A recessão e o desemprego criaram grandes obstáculos às negociações sindicais. A massa de desempregados empurrava para baixo os salários. Entre 1920 e 1933, o número de sindicalizados baixou para cerca de 2,6 milhões (10).

Ascenso das lutas desgasta a direção da AFL e resulta numa nova central — a CIO
A vitória de Franklin Delano Roosevelt na eleição presidencial de 1933 abriu novas perspectivas à luta sindical. Sua política para salvar o capitalismo em crise previa uma ampla intervenção do Estado na economia. O novo presidente promulgou a Lei Nacional para Recuperação Industrial (NIRA), garantindo o direito de organização dos trabalhadores sem interferência patronal. A NIRA foi declarada inconstitucional pela Suprema Corte, composta por juízes reacionários. Mas em 1935 o Congresso aprovou a Lei Nacional de Relações Trabalhistas, ou Lei Wagner, que manteve os pontos essenciais da NIRA.

A Lei Wagner estipulava que: “1º Os assalariados têm direito de se organizar e negociar coletivamente, por intermédio de representantes de sua escolha, e serão protegidos contra qualquer ingerência, entrave ou coação por parte dos patrões; 2º Não será pedida, como condição de contratação, que o assalariado adira a um sindicato de empresa ou que se abstenha de aderir a uma organização operaria de sua escolha.” (11). O desrespeito às normas estabelecidas acarretaria ao empresário o pagamento de multas e prisão de até um ano (12).

O patronato, entretanto, não se mostrou disposto a cumprir as novas leis e as greves se multiplicam a partir de 1933. O ano de 1934 conheceu uma radicalização havia muito tempo não vista no movimento operário estadunidense. Os trabalhadores recorreram às ocupações das fábricas que se recusavam a reconhecer a representação sindical e negociar um acordo coletivo. Velhos quadros da AFL passam a ser questionados por novas e combativas lideranças, entre as quais se encontram os comunistas.

Um grupo de sindicatos descontentes com a política adotada pela direção da AFL formou o Comitê de Organizações Industriais, cujo principal líder era John Lewis, da União dos Mineiros. O Comitê acreditava que a AFL devia priorizar a organização por indústria e não mais se assentar sobre o velho sindicalismo de ofício. Em 1938 o grupo foi expulso daquela central sindical e se constituiu enquanto uma nova central sindical — o Congresso das Organizações Industriais (CIO). O surgimento do CIO dinamizou o movimento sindical. Esta nova organização passou a incorporar os negros de maneira mais ativa, embora nunca tivesse colocado a luta pela emancipação desses trabalhadores (duplamente discriminados) no centro da sua pauta, em geral concentrada nos aspectos econômicos. 

O CIO dirigiu greves operárias importantes. A mais famosa delas resultou na ocupação da General Motors (GM) que terminou com a vitória dos trabalhadores. Outro grande movimento foi a paralisação no setor do aço, um dos últimos baluartes resistentes à organização sindical. O marco desta luta se deu no Memorial Day, em 30 de maio de 1937, no qual, num sangrento conflito com a polícia e milícias privadas, foram mortos dez operários e mais de duzentos ficaram feridos.

Mudança no cenário mundial dá novo impulso às visões sindicais de conciliação

O início de um novo conflito mundial não diminuiu o ímpeto da classe operária. Em 1943, cerca de 2 milhões de trabalhadores entraram em greve (13). No entanto, com a aproximação do final da guerra e a reconversão da economia, ocorreram mudanças no sindicalismo. Em março de 1945, William Green, da AFL, e Phillip Murray, do CIO, assinaram, ao lado dos dirigentes patronais, o documento intitulado Uma nova carta para o mundo operário e patronal. Seria um verdadeiro ato de fé na livre empresa capitalista.  O problema central, para os sindicatos, era o de manter o nível de emprego. Isto, segundo os signatários do documento, só seria possível
Protesto sindical contra a lei Taft-Hartley


O início de um novo conflito mundial não diminuiu o ímpeto da classe operária. Em 1943, cerca de 2 milhões de trabalhadores entraram em greve (13). No entanto, com a aproximação do final da guerra e a reconversão da economia, ocorreram mudanças no sindicalismo. Em março de 1945, William Green, da AFL, e Phillip Murray, do CIO, assinaram, ao lado dos dirigentes patronais, o documento intitulado Uma nova carta para o mundo operário e patronal. Seria um verdadeiro ato de fé na livre empresa capitalista.

O problema central, para os sindicatos, era o de manter o nível de emprego. Isto, segundo os signatários do documento, só seria possível “com a manutenção da união estabelecida no tempo da guerra entre patrões e trabalhadores.”. Os grandes princípios que deveriam reger esta unidade eram: “A propriedade privada e a livre iniciativa no quadro do capitalismo concorrencial são a base do desenvolvimento dos EUA. A livre concorrência e a liberdade individual são as forças de nossa sociedade livre.” (14).

Só que novamente a história imporia outro caminho. No ano de 1946 ocorreu o maior número de greves da história dos EUA. Mais de 170 mil operários da GM cruzaram os braços por 113 dias. Cerca de 750 mil operários do aço pararam por mais de 30 dias, no que foram seguidos pelos trabalhadores das indústrias elétricas (200 mil), de máquinas agrícolas (300 mil), de conservação de carne (300 mil), das indústrias petrolíferas, das concessionárias das malhas telegráficas, telefônicos, das indústrias cinematográficas (15). Foram mais de 2 milhões de grevistas e 116 milhões de dias/homens de trabalho perdidos (ou ganhos).

Aterrorizada, a grande burguesia exigiu uma política mais dura contra os sindicatos. Com apoio da grande imprensa, criou-se um clima de terrorismo antissindical. Para isto, utilizou-sedo fato de que as greves obstaculizavam as demandas de bens de consumo e serviços das camadas médias bastante numerosas nos EUA. Em 1947, o Congresso aprovou a Lei Taft-Hartley que restringia drasticamente a liberdade sindical. Entre outras coisas, a lei proibia os sindicatos de recorrerem à greve para fim de reconhecimento sindical ou praticarem boicotes visando a forçar os empregadores a negociarem com os trabalhadores.

A lei estabelecia um pré-aviso de 60 dias para deflagração de qualquer greve. Neste período deveriam ser feitos todos os esforços para evitar o conflito. As greves nos setores considerados prejudiciais à segurança e à saúde pública deveriam ter um pré-aviso de 80 dias. Mesmo assim, se eclodisse, o governo poderia intervir e decretar a suspensão imediata do movimento. A Lei Taft-Hartley, no espírito da guerra fria, exigia que o sindicato, para estabelecer contrato coletivo, apresentasse declaração afirmando que seus dirigentes não eram membros ou simpatizantes do Partido Comunista dos Estados Unidos.

O anticomunismo militante da AFL ganhou adeptos no CIO

Esta legislação abertamente anticomunista não chocou a direção da AFL. Desde a sua fundação, ela sempre foi caracterizada pelas suas posições políticas conservadoras. Após a Revolução Socialista na Rússia em 1917, Gompers se aliou ao campo da contrarrevolução internacional e se opôs ao reconhecimento do governo soviético. O antissocialismo era tão forte que a AFL se recusou a aderir à Federação Internacional dos Sindicatos (com hegemonia socialdemocrata), por considerá-la radical demais.

Em 1926, o presidente da AFL, Willian Green, escreveu: “Os comunistas têm em seu programa a destruição dos sindicatos (sic). Por isto, quando os descobrimos nos sindicatos não há outro jeito de tratá-los senão tornar público e expulsá-los.” (16). A guerra contra o eixo nazi-fascista, que uniu os EUA e a URSS, não mudou em nada esta postura. O mesmo Green reafirmaria em 1942: “A AFL não admite comunistas entre seus membros e nem admite que venham a assumir nenhum cargo.” (17).

O CIO, nos seus primeiros anos, adotou uma posição distinta. Ele abriu suas portas para todas as correntes, inclusive a comunista. Quando da sua fundação, estima-se que os comunistas participavam em cerca de 40% dos sindicatos a ele filiados. Sua influência era sentida especialmente nos sindicatos das indústrias automobilísticas, elétricas, do aço, da borracha e no sindicato dos estivadores da costa do Pacífico. Os comunistas tinham influência em inúmeras e importantes seções estaduais e municipais do CIO, como a de Nova Iorque, Cleveland, Detroit, Chicago e Los Angeles (18).

Em meados da década de 1940, graças à postura firme no combate ao nazismo e à aliança internacional entre os EUA e URSS, houve um aumento da influência comunista nos sindicatos, que chegou a representar de 20% a 35% dos efetivos do CIO (19). A direção do CIO, ao contrário da AFL, buscava manter boas relações com os sindicatos soviéticos e chegou mesmo a firmar um tratado de amizade. Ela também ajudou a construir a Federação Sindical Mundial (FSM), congregando as mais importantes centrais sindicais do mundo — com exceção da AFL! Não era à toa que circulavam nos EUA panfletos que diziam: “entre para o CIO e construa uma América Soviética.” (20).

Fusão das duas centrais consolida as posições de direita no sindicalismo

O início da Guerra Fria, no entanto, traria alterações substanciais no movimento sindical americano, consolidando as posições mais conservadoras. Phillip Murray, que até então se colocara como mediador entre as tendências no interior do CIO, passou a defender abertamente as posições da direita sindical. Na convenção de 1948, o CIO aprovou uma moção de censura contra os dirigentes que se posicionaram contra o Plano Marshall. No fim do ano, a União Sindical de Nova Iorque foi excluída da central, acusada de se subordinar ao Partido Comunista.

Em março de 1949, o presidente do Sindicato dos Estivadores da Costa do Pacífico, o comunista Harry Bridges, foi retirado de sua função de diretor regional do CIO em Los Angeles. Com ele foram demitidos inúmeros funcionários supostamente ligados ao PC. Os comunistas passaram a ser expulsos das diretorias de vários sindicatos, como o dos Marítimos da Costa do Atlântico e o dos Trabalhadores nas indústrias Automobilísticas, que era dirigido por Walter Reuther.

No ano seguinte consolidam-se as posições direitistas que colocam a central definitivamente a reboque da política de guerra fria implementada pelo governo do presidente Harry Truman. Foi aprovada uma resolução proibindo os comunistas e seus simpatizantes de assumirem funções dirigentes da central sindical. A direção do CIO recebeu carta branca para excluir qualquer sindicato de suas fileiras. Com novos e maiores poderes, decidiu expulsar o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Elétricas, das Máquinas Agrícolas e dos Estivadores da Costa do Pacífico. Dezenas de sindicatos passaram a ser investigados e punidos por suas posições políticas de esquerda (21).

Contra os sindicatos que não se curvavam eram utilizados os chamados “raids” (ataques), através do quais os sindicatos vizinhos se expandiam e passavam a roubar as bases das entidades sob direção dos comunistas e simpatizantes. A ação governamental, que proibia os sindicatos classistas (comunistas) de agirem como interlocutores oficiais nas contratações coletivas, e a ação repressiva da AFL e do CIO contribuíram para redução drástica da influência da esquerda no movimento sindical estadunidense. John O. Carey, tesoureiro do CIO, não tergiversou quando disse: “no passado unimo-nos aos comunistas para lutar contra os fascistas. Em outra guerra no uniremos aos fascistas para lutar contra os comunistas.” (22). Isso era o que já estava ocorrendo em várias partes dos Estados Unidos e do mundo.

O CIO ficou cada vez mais parecido com a velha e carcomida AFL. Os dois agora estavam unidos numa Santa Aliança contra o comunismo e em defesa das posições do imperialismo norte-americano. Em 1953, eles assinam um pacto de nãoagressão. Na verdade, o CIO já estava bastante enfraquecido. Ele perdera um grande número de membros com a expulsão da esquerda sindical e a saída de John Lewis do Sindicato dos Mineiros.

Em 1955 ocorreu a fusão das duas centrais, a nova organização teria a sigla AFL-CIO. Naquele momento, a AFL possuía 10.200.000 filiados e o CIO, 5.200.000 (23). A presidência dessa “nova” central seria ocupada por Georg Meany, então dirigente da AFL. Coube à direção do CIO algumas vice-presidências, uma delas ocupada por Reuther. 

Conflito em Haymarket, Chicago, 1886

A Máfia domina os sindicatos e Al Capone lidera o “combate ao bolchevismo”

A postura pragmática e as posições anticomunistas fizeram do movimento sindical americano um terreno propício para a ação do crime organizado. No início da década de 1930, vários líderes de quadrilhas foram contratados pelos sindicatos com a finalidade de barrar o avanço de lideranças comunistas. Al Capone, o líder da Máfia, chegou a afirmar: “O bolchevismo está batendo em nossas portas. Não podemos permitir que entrem. Temos que nos organizar contra ele, unir os ombros e aguentar firmes. Devemos manter a América salva e imaculada. Devemos manter os trabalhadores afastados da literatura vermelha e do logro comunista, devemos cuidar que sua mente permaneça sadia.”. O seu bando chegou a atacar a sede do Sindicato dos Caminhoneiros em Chicago (24).

As quadrilhas inclusive dominaram vários sindicatos (25). Em outros casos elas foram chamadas para “proteger” os trabalhadores da truculência das gangues contratadas pelos patrões. James Hoffa, presidente do Sindicato dos Caminhoneiros (os Teamsters), afirmaria: “Não se pode escolher os colaboradores. Aproveita-se de quem é capaz de assegurar-nos o sucesso.” (26).

Na década de 1950 o governo federal iniciou uma série de investigações sobre a influência do crime organizado nos sindicatos. Aproveitando-se dos escândalos provocados pelas investigações, o Congresso preparou nova legislação antissindical. A direção da AFL-CIO, que até então incentivara o gangsterismo, foi obrigada a mudar de postura. Através do seu comitê de normas éticas (sic), abriu inquéritos contra dezenas de sindicatos, inclusive o dos Teamsters (27).

A expulsão dos Teamsters e de outras entidades envolvidas com a Máfia não representou o fim da corrupção e da violência dentro da AFL-CIO. Na década de 1970, o presidente do Sindicato dos Mineiros, William Boyle, foi condenado à prisão perpétua pelo assassinato de um membro da oposição. No mesmo período, o Sindicato dos Estivadores da Costa Atlântica, famoso por seus boicotes “espontâneos” aos produtos destinados ou provenientes de Cuba e da URSS, foi envolvido num rumoroso caso criminoso chamado “Escândalo do Trigo”.

AFL-CIO se subordina à política imperialista e financiada pela CIA 
Com exceção do breve período entre1938 e 1946 no qual o CIO desenvolveu certa prática internacionalista, no restante do tempo a posição hegemônica nas direções da AFL e do CIO foi a de completa subserviência à política externa do imperialismo estadunidense. Este vínculo estreito, no entanto, ganhou maior repercussão na década de 1960, quando o sindicalismo norte-americano foi sacudido pelas denúncias de um dos mais importantes dirigentes da AFL-CIO, W. Reuther. Ele revelou que a política externa da AFL-CIO era dirigida e financiada pela Agência Central de Inteligência (CIA).

Em 1965, a renda anual da AFL-CIO era de aproximadamente 11 milhões de dólares, mas, estranhamente, remetia ao exterior mais de 6 milhões, com a finalidade de “ajudar” o “movimento sindical livre” (28). Com esse dinheiro, a AFL-CIO, a serviço da CIA, patrocinou a desestabilização e a derrubada de inúmeros governos democráticos e nacionalistas pelo mundo todo. Ela também teve participação ativa nas mobilizações em apoio às guerras na Coreia e no Vietnã.

No caso da América Latina, o principal instrumento desta intervenção era o Instituto Americano para o Desenvolvimento do Sindicalismo Livre (IADESIL), responsável pelo “treinamento” de sindicalistas latino-americanos. Ele é administrado conjuntamente pela AFL-CIO, pelo governo dos Estados Unidos e por um conjunto de representantes de grandes corporações capitalistas daquele país (29).

William C. Doherty, um dos encarregados da IADESIL na década de 1960, afirmaria orgulhoso que a safra de brasileiros graduados “era composta de elementos que se tornaram intimamente envolvidos em algumas operações clandestinas da revolução antes que ela ocorresse (…). Muitos líderes sindicais – alguns foram efetivamente treinados em nosso instituto – estiveram envolvidos na revolução e na derrubada do regime de Goulart.” (30). Em 1973, inúmeros sindicalistas formados e financiados pela IADESIL estiveram envolvidos no golpe militar no Chile. Essas não foram exceções, e sim a regra.

Conflito entre grevistas e policiais

 


A estrutura viciada de um sindicalismo cupulista e de “grandes negócios” 

Na década de 1980, a AFL-CIO possuía cerca de 13,5 milhões de filiados, o equivalente a 85% dos operários sindicalizados, mas a apenas 15% da População Economicamente Ativa (PEA) do país. Era o índice mais baixo entre as nações industrializadas do chamado Primeiro Mundo (31). Dos 175 sindicatos existentes, 111 eram filiados a ela e outros 64 eram independentes. Entre estes, se encontravam alguns dos maiores sindicatos do país, como o dos caminhoneiros, dos trabalhadores das indústrias automobilísticas, dos eletricitários e dos estivadores da Costa do Pacífico (32).

Além dos sindicatos nacionais/internacionais (porque geralmente englobam bases no Canadá),existem os chamados sindicatos locais, que funcionam como uma espécie de subsede, embora com certa autonomia. Eles devem receber licença para atuar no sindicato nacional/internacional. Este, para manter o controle, detém o direito sobre as propriedades locais, o monopólio de deflagração de greves e de celebração de contratação coletiva, o poder de revogação da “carta sindical” e de intervenção nos sindicatos locais quando estes desrespeitam as decisões das direções nacionais (33).

Os sindicatos nacionais/internacionais possuem grandes recursos materiais e financeiros. Cerca de 25% dos sindicatos possuíam na década de 1980 uma receita anual superior a 1 milhão de dólares.Grande parte deste dinheiro vinha das joias (taxa de ingresso) e das contribuições periódicas (34). Outra particularidade é a concepção sobre o papel das lideranças sindicais. Eles são mais técnicos em contratação coletiva do que organizadores das lutas operárias.

Pouco se preocupam em consultar as bases sobre o que elas realmente desejam do ponto de vista de suas reivindicações econômicas e sociais. Certos sindicatos ficam anos sem realizar assembleias e, em alguns casos, os dirigentes nacionais simplesmente indicam as direções dos sindicatos locais. Esta concepção elitista leva a alta cúpula sindical a receber salários próximos aos dos gerentes das indústrias capitalistas. A visão predominante é de que “o patrão dirige a empresa, este é o seu papel. O líder sindical dirige as negociações relativas a salários, condições de trabalho e estabelecimento dos contratos coletivos. Este é o seu papel. Os dois são técnicos, por isso devem ser bem remunerados.” (35).

Em 1974, por exemplo, o salário do presidente do Sindicato dos Empregados em Hotéis e Restaurantes, que tinha na base 472 mil trabalhadores, era de US$ 135.429 e o do dirigente da Fraternidade Internacional dos Condutores (com quase 2 milhões de trabalhadores na base) de US$ 133.340 (36). Esta concepção capitalista, também batizada de sindicalismo de negócios (Union Business), tem sido uma das causas do burocratismo, da violência e da corrupção que imperam no movimento sindical americano. 

* Artigo publicado originalmente na revisa Debate Sindical, nº16/abril-junho de 1994.

** Augusto Buonicore é historiador, presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e revolução brasileira: encontros e desencontros; Meu verbo é lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas; e Linhas Vermelhas: marxismo e dilemas da revolução. Todos publicados pela Fundação Maurício Grabois e a Editora Anita Garibaldi.

Notas 

(1) HUBERMAN, Leo. Nós, o povo, p. 207.

(2) IDEM, p. 208.

(3) IDEM, p.210.

(4) IDEM, p. 212.

(5) IDEM, p.217.

(6) LEFRANC, Georges. Sindicalismo no Mundo, p. 31.

(7) HUBERMAN, Leo. Nós, o povo, p. 213.

(8) MORRIS, George. A CIA e o Movimento Operário Americano, p.29.

(9) MARCHALL, F. Ray; RUNGELING, B. O Papel dos Sindicatos na Economia Norte-Americana, p. 54.

(10) IDEM, p. 55.

(11) LEFRANC, Georges. O Sindicalismo no Mundo, p. 70.

(12) LEFRANC, Georges. Les experiences Syndicales Internationales, p. 287.

(13) IDEM.

(14) IDEM, p.298.

(15) IDEM, p. 298-299.

(16) IDEM, p. 306.

(17) IDEM, p. 306.

(18) IDEM, p.307.

(19) IDEM, p. 307.

(20) MORRIS, George. A CIA e o Movimento Operário Americano, p. 47.

(21) LEFRANC, Georges. Les Experiences Syndicales Internationales, p. 309.

(22) MORRIS, G. A CIA e o Movimento Operário Americano, p. 105.

(23) LEFRANC, G. O Sindicalismo no Mundo, p.79.

(24) MORRIS, G. A CIA e o Movimento Operário Americano, p. 35.

(25) IDEM.

(26) TYLER, Gus. A Revolução Trabalhista, p. 232.

(27) IDEM, p. 230.

(28) MORRIS, G. A CIA e o Movimento Operário Americano.

(29) IDEM, p. 84.

(30) IDEM,p. 86.

(31) FRAVORD, Charles-Henri (org.). O Sindicalismo, p. 46.

(32) IDEM p. 46.

(33) MARSHALL, F.; RUNGELING, B. O Papel dos Sindicatos na Economia Americana, p. 67-68.

(34) IDEM, p. 72.

(35) MARTINET, G. Sept Syndicalisme, p. 176.

(36) MARSHALL,F.; RUNGELING, B. O Papel dos Sindicatos na Economia Americana, p. 74.

Bibliografia

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