«O nosso sonho sempre foi a paz» Entrevista a Exequiel Loaisa, preso político das FARC-EP

O Manifesto74 conversou com Exequiel Loaisa, preso político das FARC-EP, acabado de sair de uma greve de fome para exigir ao governo colombiano o cumprimentos dos acordos de paz.

É claro o texto que assinou o Nobel da Paz, Juan Manuel Santos: passados dez dias os guerrilheiros seriam amnistiados. A organização insurgente, garante a ONU, tem cumprido escrupulosamente todos os artigos que a obrigam, incluindo a deposição das armas, mas, passados seis meses, a maioria dos cerca de 7000 guerrilheiros presos continua atrás das grades. Exequiel Loaisa, de 34 anos, nas FARC desde os 12, é um deles. Guerrilheiro, pai de dois filhos, fala das suas convicções políticas com uma serenidade que desmantela toda a propaganda sobre as «FARC narco-traficantes». Exequiel sabe pelo que luta. Com apenas um par de anos de escolaridade formal, pela qual se desculpa repetidamente, exibe uma cultura política ímpar, um conhecimento profundo dos problemas do seu povo e responde com desenvoltura, sem hesitações, a todas as perguntas. Das profundezas do pátio N.º 4 da La Picota, uma das mais infames masmorras da América Latina, explica-nos as razões da guerra e da paz na Colômbia. Numa entrevista feita em condições precárias, ao longo de vários dias, diz-nos que é preciso lutar, até à vitória sempre.

Por que razão aderiste à greve de fome?

Eu e outros 2000 guerrilheiros das FARC-EP estivemos em greve de fome pela liberdade de todos os presos políticos e de guerra. Porque o governo continua a não cumprir a Lei da Amnistia.

Quantos dias estiveste em greve de fome?

Estive 13 dias sem comer.

E qual é o balanço que fazes deste protesto?

Positivo. Acho que a greve contribuiu para que as organizações internacionais pressionassem mais o governo para aprovar um novo decreto com o qual esperamos ser libertados ainda este ano.

Reunião dos presos políticos das FARC-EP na prisão La Picota (Foto: Exequiel Loaisa)

Como foste parar às FARC-EP?
Foi no ano de 1991. Tinha a curta idade de oito anos mas recordo-me como se tivesse sido ontem: várias unidades do exército, nessa altura sob ordens do general Harold Bedoya, chegaram à nossa aldeia, Guapaya Medio, no município de Vista Hermosa. Atacaram a população civil e mataram muitas pessoas. A uma jovem, grávida, abriram-lhe o ventre, tiraram-lhe o bebé e andavam pela aldeia a brincar com ele na ponta das baionetas. Ela ainda estava viva. O companheiro assassinaram no garrote. Andavam de casa em casa. Achavam que havia guerrilheiros.

E havia?

Nessa altura ninguém na minha família era guerrilheiro. O meu pai trabalhava a terra para alimentar-me a mim e aos meus três irmãos. Disparavam sobre tudo o que se mexesse. Matavam toda a gente que encontrassem, dentro das casas, nos caminhos, em todo o lado. Às 5:30 da manhã chegaram a nossa casa. Só por sorte conseguimos fugir, mas queimaram-nos a casa com tudo o que tínhamos lá dentro. Durante a fuga, o meu irmão, de 15 anos, foi atingido com um tiro no cotovelo. Ficámos só com o que tínhamos no corpo. Lembro-me perfeitamente de que só fiquei com o meu uniforme da escola: calções azuis e blusa amarela. Foi assim que nos «deslocaram». Perdemos a nossa pequena quinta. Isto é uma coisa que não se supera…

Foi então que entraste para as FARC?

Não. Todos os homens da família entraram imediatamente, mas eu só entrei passados quatro anos: aos 12 anos e dois meses ingressei na Frente 27 Isaías Pardo das FARC-EP, Bloco Oriental.

Os teus pais não te tentaram impedir?
Os meus pais sabiam que era justo entrar para as FARC-EP. Mas, no nosso caso, não era só justo, também era necessário: para nós e para o nosso povo. Era melhor morrer a lutar do que «picado» pelos grupos paramilitares ou pelas forças armadas. Apesar disso, foi uma decisão minha. Nas FARC-EP entra-se por decisão própria, conscientemente.

Protesto dos presos políticos das FARC-EP (Foto: Exequiel Loaisa)
Perdeste o contacto com o resto da tua família?

Muitos anos depois, já estava eu nas fileiras das FARC-EP, o Estado voltou a atacar a minha família. Voltaram a deslocá-los do lugar onde estavam a trabalhar a terra. Só voltei a vê-los 15 anos depois. Tinham perdido tudo o que tinham conseguido ao longo da vida. Hoje estão na capital, onde passam fome, suportam muitas humilhações e outras coisas que aqui não digo, porque me ferem os sentimentos. Magoam.

Como é crescer na guerrilha?
É a experiência mais bela que qualquer ser humano pode viver. Nas FARC-EP aprofundei as razões da luta. Aprendemos a respeitar os seres humanos como seres humanos. Compreendes? Como irmãos. E aprendemos a lutar pelos oprimidos. Nas FARC-EP lutamos por uma transformação social para o nosso povo: não há nada mais bonito do que lutar pelo bem-estar do povo. Uma pessoa sente-se feliz. Sentimo-nos em casa. Se a minha vida não tivesse sido nas FARC não teria sido vida.

Mesmo para uma criança?

O governo e os seus políticos oligarcas criticam a incorporação de menores de idade nas fileiras da nossa organização, mas se não fosse assim, morreriam muitas crianças às mãos dos grupos paramilitares. E muitos outros morreriam de fome. Mas é absolutamente falso que as FARC-EP levem crianças contra a sua vontade ou contra a vontade dos pais. É uma mentira suja, lançada por políticos corruptos no âmbito de uma estratégia de propaganda. Eles são os culpados por nos terem empurrado para o caminho da luta armada. Eu pergunto, aqui quem é o criminoso? Quem põe o seu próprio povo a padecer misérias, a passar fome, a ser explorado, ou quem ama o povo e acolhe as crianças que, como eu, são vítimas do próprio Estado? As FARC protegem as crianças em todas as circunstâncias, alimentam-nas, educam-nas, fazem delas pessoas de bem.

La Picota (Foto: Exequiel Loaisa)

Durante muitos anos, a comunicação social europeia insistiu em chamar «narco-traficantes» aos guerrilheiros das FARC-EP. Qual é a vossa relação com a coca?

Não somos nem nunca fomos narcotraficantes. O problema é que, nas zonas rurais, os camponeses são obrigados cultivar coca porque não há alternativas. É preciso compreender que, na Colômbia, a coca é apenas um meio para sobreviver e será assim enquanto o governo não solucionar o problema da pobreza. Se, [nas FARC-EP] comemos e nos vestimos com o dinheiro da coca é porque somos uma força militar irregular e sustentamo-nos com o apoio de trabalhadores que são obrigados a cultivar coca.

Fala-nos da tua captura. Como tens sido tratado, enquanto preso político?

Há quase três anos fui atingido por duas balas no abdómen e uma na perna direita. Desde que estou preso, nunca fui tratado com dignidade. O INPEC (Instituto Nacional Penitenciário y Carcerário Colombiano) é uma organização que exerce livremente todo o ódio da oligarquia burguesa contra os presos políticos e de guerra. Aqui estamos indefesos. Apesar disso, nesta prisão, as coisas melhoraram um bocadinho. Foi muito difícil, para nós enquanto presos políticos e de guerra, conquistarmos o nosso espaço. A situação com os senhores do INPEC é complexa. Eles trabalham com a polícia e fazem o trabalho contra-insurgente do inimigo interno dentro das prisões. São um agrupamento de criminosos violentos que soltam todo o seu ódio contra os presos. Não querem saber dos ferimentos de guerra nem dos doentes terminais. Há seis meses, o médico diagnosticou-me pedras muito grandes na vesícula e no rim esquerdo. Disse-me que é grave. Desde então, e já lá vão seis meses, continuo sem qualquer tratamento. Queixo-me de dores agudas no abdómen, mas nem um comprimido para as dores me dão. Nada.

Protesto dos presos políticos das FARC-EP  na prisão La Picota (Foto: Exequiel Loaisa)

Quais são as razões que os tribunais esgrimem para manter-te preso?
O tribunal argumenta que eu nunca pertenci à organização, que não sou reconhecido pelo governo e que os meus delitos não se produziram no âmbito do conflito. Obviamente, só os líderes das FARC, e não o governo, é que estão em condições de dizer quem é e quem não é guerrilheiro das FARC.

Como avalias a vontade do secretariado das FARC em abrir a via do diálogo e terminar a guerra?

O sacrifício do secretariado é muito positivo. Não é fácil chegar a acordo com um inimigo tão recalcitrante como o governo colombiano, mas, se for cumprido, poderemos desfrutar de paz com justiça social. Da nossa parte, estamos totalmente comprometidos com o povo colombiano. Tudo o que estamos a fazer, toda a nossa luta, este acordo, tudo é a pensar no bem-estar dos mais pobres da Colômbia. O nosso sonho sempre foi a via do diálogo, mas fomos obrigados a ir à guerra.

Exequiel Loaisa, preso político das FARC-EP (Foto: Exequiel Loaisa)

No entanto, em 2016, o diálogo com as FARC-EP foi chumbado nas urnas.

Somos um povo com poucos estudos. Deixamo-nos enganar facilmente pelos inimigos da paz, que se valem de todo o tipo de mentiras para adormecer as comunidades.

O que achas que pode acontecer se o governo continua a não cumprir os acordos de paz?

Pode explodir uma guerra de dimensões nunca antes vistas. O facto de termos baixado as armas não quer dizer que confiemos neste governo traidor. E nós, os homens e as mulheres das FARC-EP, estamos preparados. Preparados para a paz mas também para o pior. Estamos aqui para o que der e vier.

É possível, pelas urnas, conquistar o poder e construir o socialismo na Colômbia?

Não. Aqui, a única coisa que tira o poder ao governo é uma insurreição popular. Nenhuma outra forma é possível. Mas é muito positivo que consigamos obrigar o governo a sentar-se à mesa das negociações e fazer uma paz que eles não desejam.


O que vais fazer quando fores libertado?
É provável que leiam nas notícias que fui assassinado. É a forma como actua o governo de ultra-direita. Mas vou procurar a minha unidade guerrilheira. São a minha família, o meu único amor, a única coisa que tenho. Se o Estado não me obrigar a voltar à guerra, irei vincular-me a esta nossa nova forma de luta revolucionária. Em paz.

Queres deixar alguma mensagem a quem te vai ler em português?

Sim. Ajudem-nos a exigir ao governo colombiano que seja sério e cumpra a sua palavra, que teu diante do mundo inteiro.

Nota do entrevistador: desta entrevista e das conversas que se lhe seguiram nasceu uma relação de amizade e a vontade de fazer uma contribuição voluntária para ajudar a pagar as despesas médicas do Exequiel. Privado pelo Estado colombiano dos medicamentos de que necessita, este preso político precisa de comprá-los do seu próprio bolso para reduzir as dores de que sofre diariamente. Decidi, a título individual, fazer um pequeníssimo (minúsculo, mesmo) envio de dinheiro solidário. Se alguém se quiser juntar, mesmo que seja com muito pouco, toda a ajuda é bem-vinda. Até ao próximo dia 15 de Agosto, todo o dinheiro que seja depositado na conta abaixo indicada irá parar a uma pessoa de confiança, na Colômbia, que se encarregará de comprar o medicamentos para os presos políticos. Todas as quantias transferidas, bem como a contribuição total, serão divulgadas neste site.

NIB: 001800032246245102048
IBAN/IU: PT50 0018 000322462451020 48
Swift Code/BIC: TOTAPTPL

Este artigo encontra-se em: Manifesto74 http://bit.ly/2urbjpJ

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