PANFLETÁRIO – Jorge Barbosa

PANFLETÁRIO
ao poeta José Bizarro
Era para eu
ser panfletário.

Os meus escritos
teriam a verrina
as iras
o rubro
grito da revolta!

Era para eu
ser panfletário.

Combateria
            os tiranos

            os arbitrários
            os agiotas
            os exploradores da miséria
            e do trabalho dos pobres
            os homens poderosos
            e os seus mandatários
            e bajuladores
            e as leis que os protegem.

Era para eu
ser panfletário.

Teria o porte
audaz e altivo
e belo
de um guerreiro.
Levaria nos olhos
a chama e os sonhos
no sorriso um ar
amargo e triste
a cabeça ao léu
impávida erguida
e a cabeleira ao sol
ao vento
e ao frio nocturno
dos secretos e longos
caminhos da fuga.

Era para eu
ser panfletário.

Ao passar pelas ruas
das vilas rurais
então se fechariam
as portas para mim.
Talvez pelo exíguo
espaço de alguma
janela entreaberta
os pais me apontassem
aos filhos tementes
e lhes segredassem
— o panfletário!

Era para eu
ser panfletário.

Escreveria
            panfletos
            sátiras
            libelos
seria
            o inimigo
            o subversivo
            o foragido
            o perseguido
            o réprobro
conheceria
            tribunais
            esconderijos
            cárceres
sentiria
            a fome e o cansaço
            teria no corpo
            a tatuagem marcada
            das torturas policiais.

Era para eu
ser panfletário.

O magnífico
e heróico destino
que eu imaginava
tão liricamente
ser o meu
venceram-no
a prudência
o temor
a família
venceu-o
este meu outro
real
e melancólico
destino burocrático…

Era para eu
ser panfletário.

Não o fui
e ainda me dói
o desejo de o ser…

Mas agora
com o resíduo do tempo
tingindo de branco
os meus cabelos
gotejando
doloroso
nos meus ossos
é tarde demais
para a magnífica aventura…

Era para eu
ser panfletário.

Este artigo encontra-se em: voar fora da asa http://bit.ly/2tBwsPw

Anúncios