Neguemo-nos!

 

ACRE LUCIDEZ DE CINZA

Nego-me à estética do Horrível
E à música de Wagner como se a cavalgada
Da Morte fosse enfeite a enquadrar o telejornal
Nauseabunda esteticização do Desastre
A celebrar o Espectáculo dos corpos e das casas
E as labaredas a lamber os impassíveis olhos
Mal refeitos ainda da voragem do Pânico.

Nego-me ao microfone em riste
A invadir as bocas e colher a baba das palavras
E escarafunchar o pormenor da Lágrima
E a dobra da Agonia como viver ou morrer fosse
Noção escorreita perante e iminência da Morte.

Nego-me a doutas opiniões e ao grande Debate
E ao arroto da Sabedoria ao serviço da Ganância
A desenhar manobras e as invisíveis rotas
Do Lucro e permanente encenação do Mesmo.

Nego-me ao leilão das alvas consciências
A pingar em fila da Banca e dos altos muros
Da Instituição. E nego-me aos caninos cibernantropos
A salivarem tweets e likes e rabinho electrónico
A dar a dar e a babarem-se sem ao menos saberem
Que nada representam – pálida imitação dos Donos.

Nego-me a esta impúdica exasperação dos lugares.
E da Dor, que sendo minha, é apenas Simulacro
Palavra que não (me) redime, nem salva
E que, no entanto, teima – acre lucidez de cinza.

Manuel Veiga (aqui)

Este artigo encontra-se em: CONVERSA AVINAGRADA http://bit.ly/2tvhsAn

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