“of course”…

Breve aponta mentes, em Expresso curto, por:

Valdemar Cruz
Valdemar Cruz
Jornalista

 

Enquanto Lisboa Dorme
13 de Junho de 2017

 

 

Hoje é o dia! Eis chegado o momento de proclamar a gloriosa máxima dos idos de 1975 e outros quentes verões, quando bombas explodiam e matavam a Norte, onde, dizia-se, se trabalhava, enquanto no Sul se gastava o dinheiro. Está encontrada a deixa, porque é de dinheirinho que quero falar nesta manhã trabalhosa, chuvosa e de grandes trovoadas, a Norte, enquanto no sul lisboeta se faz gazeta. O dinheiro vem à colação a propósito de um acalorado debate ontem travado na Assembleia da República. Por isso, é este o momento em que apetece dizer, não apenas por tique reacionário, que Lisboa anda mesmo a dormir. Entenda-se aqui Lisboa como metáfora do poder político sediado na capital e que não sabe, não pode, ou não quer lidar com esse monumento à livre iniciativa e ao capitalismo solidário – contradição nos termos? – que dá pelo nome de “off-shore”.

PSD e CDS atiraram-se ao Governo por, ao excluir o Uruguai e as ilhas de Man e de Jersey da lista negra de paraísos fiscais, ter cometido uma ilegalidade. Ripostou o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais para dizer que aqueles partidos estão a criar “uma floresta de fantasias e falsidades”. Sobre o que está em causa neste debate, nada como ler o detalhado trabalho do Adriano Nobre com 15 perguntas capazes de dar resposta a algumas das questões essenciais sobre um tema que ao longo dos anos tem aproximado, mais do que distanciado, sucessivos governos com a participação do PSD, CDS e PS. Em causa estão paraísos de acesso restrito, onde nem a lei fiscal, nem as autoridades judiciárias ou a supervisão financeira entram, decidem, ou controlam o que quer que seja. São muitos e estão espalhados pelo mundo, como o mostra este trabalho da Economist Intelligence Unit.

São milhões, biliões de euros a circular em roda livre, ao ponto de, num estudo bem mais antigo daquela estrutura ligada à insuspeita The Economist, sintomaticamente intitulado “Lugares ao Sol”, se afirmar, após o sub-título “parasitas ou pioneiros?” que estes centros “são frequentemente retratados como parasitas financeiros que sobrevivem desviando impostos e outras receitas da economia ‘real’, oferecendo um paraíso para fraudes fiscais e lavagens de dinheiro. Em parte isto continua a acontecer – mas acontece de igual modo nas grandes economias”. Pois. Valha-nos Stº António, que não tem culpa nenhuma disto e só está à espera do S. João para tomarem juntos um copo com o S. Pedro. Até porque já perceberam que, não obstante estes ocasionais e trepidantes desaguisados, tudo vai continuar na mesma no que às “shores” que são “off” diga respeito. Porque Lisboa prefere continuar a dormir.
 
(…)
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“Acordai!” 
enquanto tanto há quem cante e dance…
 (e não é só em Lisboa!)

Este artigo encontra-se em: anónimo séc. xxi http://bit.ly/2ti9Z6R

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