1938-2017

Armando da Silva Carvalho :
cala-se a voz, ficam
belíssimos poemas

POEMA QUE FOI CURTO

Num poema curto a corrente do sangue corria

como um planeta levando no dorsal

a filosofia pública da hora,

e a luz nua e directa incidia sobre o corpo,

real, absoluta.

Hoje o poema teima sempre em ser maior,

e a história, o tempo, a memória e o verso porque é velho,

ocultam-lhe a idade nas curvas irreconhecíveis

dum vulto.

É sempre cada vez mais longa a maratona,

e as insistentes palavras

parecem desistir enquanto avançam.
in «A Sombra do Mar» 
(Assírio & Alvim)

Varanda de Pilatos

Não há tempo. Há o espaço. O sol e as nossas voltas.
Os bocejos da lua, o clã dos astros.
Os buracos negros.
Ó mãe! Para onde foram os seres vivos de ainda
Há pouco em todo o seu esplendor?
Mortos como tu, a natureza recebe-os.
A Terra, essa criança atroz, destrói os seus brinquedos
Numa rotina mecânica.
Quantas noites me faltam? Quantos beijos no escuro?
Quanta luz me cabe ainda nas pupilas?
Os anos não me matam, não me ferem os meses,
As horas não me guilhotinam.
As células vão ardendo nos seus mapas
De nervos, o sangue demora sempre mais um pouco
A chegar ao seu destino orgânico.
Devagar, devagar, a cabeça amolece.
Devagar no colo do sono.
Ó mãe. Um ninho. Uma cama macia no teu ventre.
Uma exposição de sinais. Uma geometria
Que me liga ao saber acumulado. 


 in ‘Sol a Sol’

Este artigo encontra-se em: o tempo das cerejas 2 http://bit.ly/2rJOKhN

Anúncios