ISCEF-ISEG – quente e frio

Vivi uma semana em que uma das marcas indeléveis da minha vida se avivou. Juntámo-nos os sobreviventes (e familiares) de uma epopeia (!): a conquista pelo ISCEF do Campeonato Universitário de Futebol de 1957. Voltámos (e almoçámos) ao “velho Quelhas”, onde fomos recebidos com grande simpatia e até amizade pelos actuais residentes e responsáveis (direcção, associação de antigos alunos e associação de estudantes).
No regresso, ainda com os restos de contida emoção, escrevi uma saudação que ema(i)lei para os companheiros e convivas de tão vivida jornada. Para eles seria, e 6ª feira foi enviada e por aí ficaria o escrito, não fora o Expresso de ontem, em que o ISEG aparece a auto-promover-se com muita pompa e alguma circunstância naquela ambígua publicidade em que o semanário se compraz para nosso desprazer. E denúncia.

E a emoção foi substituída pela irritação e o sentimento de oportunidade de transformar a saudação a “Económicas” em rejeição de um novo “ensino da economia” que faz parte subalterna de um mercado avassalador e acanalhador.     
  
ECONÓMICAS!
Há 60 anos…
(começo a escrever e vem-me à memória o velho poema do Acácio Antunes, “antigamente a escola era risonha e franca…).
Há 60 anos, a nossa escola de Quelhas seria risonha e franca. Ou nós assim a víamos (ou assim a vemos, hoje, passados 60 anos sobre os 20 anos que então eram os nossos).
Há 60 anos, o ISCEF era, para cada um de nós à sua maneira, a porta para a maioridade de cada um de nós. Subíamos a Travessa do Pasteleiro, vindos da Rua da Esperança, e passávamos à porta da Emissora Nacional, ou atravessávamos a Madragoa e ao descer a Rua do Quelhas, espreitávamos (nós, os rapazes…) as jovens operárias do Luso-Fármaco. E estávamos em casa. Alguns entravam pela Miguel Lupi, por onde também era a porta do prof. Albuquerque vindo, com as suas sandálias, de Campo de Ourique, com quem me cruzava eu, chegado (a correr, vejam lá…) da Rua do Sol ao Rato.
Há 60 anos, era só isso a nossa escola, sem as instalações na Miguel Lupi e anexos na Buenos Aires, sem o alastramento ao edifício da EN. Era esse espaço risonho e franco porque nós éramos risonhos e francos, com os nossos quase 20 anitos ou poucos meses mais. E, sendo apenas isso, era tanto!
Há 60 anos, não havia portagem à entrada (…) Ali, onde hoje escasseiam (e disputam-se) lugares de parque para tanto automóvel, era a nossa “cantera” (e não posso deixar de lembrar que, entre os eventuais futuros achados de “escavações arqueológicas”, estará um menisco ali fracturado… que me veio a livrar da guerra colonial!).
Há 60 anos, carros? Dois ou três de professores e mais um (um VW) de aluno de apelido Espírito Santo (e Comercial de Lisboa).(…)
Mas se há 60 anos assim era a escola, esta escola não era uma ilha sem pontes. O País não vivia tempos nem risonhos nem francos. E invadiam-nos ventos e marés. A nossa Associação dos Estudantes era uma outra escola. Foi-o para alguns! O dec-lei 40.900, que procurou meter as AEs na Mocidade Portuguesa mereceu luta, que foi vitoriosa; a abertura a uma AIESEC foi conseguida combatendo o ostracismo a que nos queriam condenar a exemplo de ao redor. E tanto mais… Mas não só dos conotados com lutas outras e na clandestinidade (que levaram alguns a provas bem duras vida fora, por opções político-partidárias). Também de outros, que procuravam mudar por dentro o que de mal todos vivíamos, e concitavam jovens nesse esforço, como o prof. Pereira de Moura, então procurador à Câmara Corporativa, com o seu grupo de estudantes, uma outra escola dentro da escola (trabalho que – importa-me dizê-lo – retomou mais tarde, nos anos 80, ao fazer do prestígio da escola e do ensino da economia sua tarefa prevalecente).
Há 60 anos!, há 60 anos esta “casa” era o nosso começo de vida, uns vindos do Instituto Comercial, outras/outros saídos de uma alínea g) dos liceus de todo o País onde ela havia, a vivermos uma reforma de 1949, fruto sobretudo do prof. Pinto Barbosa e seus 3 “mosqueteiros” (Jacinto Nunes, Teixeira Pinto, Francisco Moura), em que ganhavam peso (até nos chumbos selectivos) os “métodos quantitativos”, com a herança de um Bento de Jesus Caraça, a influência tutelar de um Mira Fernandes, as estatísticas e econometria com outro Bento, o Murteira.
Há 60 anos! Assim se criava, connosco!, uma verdadeira escola, uma faculdade de uma  universidade técnica, numa sociedade que mudava, que tinha de mudar!, para cuja mudança íamos contribuir, tínhamos de contribuir!, com ajudas de gente como Adérito Sedas Nunes, como Mário e Aurora Murteira, como Manuela Silva. Com outros de que, injustamente não lembro, aqui, os nomes.
Há 60 anos!, há 60 anos não era esta encruzilhada perante o incerto futuro – era outra! –, não era esta confusão de 5 licenciaturas de escassos 3 anos, em english e in português, de mestrados esquisitos e doutoramentos em barda e desvalorizados (terei sido um dos últimos que sentiu – no mais fundo de si – a relevância interior ou interiorizada de um doutoramento que não peça de um puzzle de um enorme mercado, de uma oferta em concorrência com a Nova e a caterva de universidades privadas fornecedoras de insólitas e escandalosas graduações).
(…)
25 de Maio de 2017 

Este artigo encontra-se em: anónimo séc. xxi http://bit.ly/2s3OYwX

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