O X Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, 1973, em Berlim, capital da RDA

A campanha de apoio em Portugal ao X Festival terá tido outras iniciativas no 1º semestre de 1973. Eu estive associada a duas: a montagem de uma banca com um comunicado da comissão portuguesa e para recolher fundos na Cantina da Cidade Universitária e um encontro nacional de juventude num pinhal em S. Pedro de Moel, que viria a ser cercado por agentes da PIDE, forças da PSP e GNR, que impediram a reunião, obrigaram à dispersão dos presentes e nos roubaram vários exemplares de propaganda alusiva.

Quanto à viagem, saímos no combóio para Paris em pequenos grupos, separados e em diferentes momentos. No meu grupo iam também a Margarida Vicente, estudante de … e a Teresa Gafeira, já então ligada ao Teatro de Campolide. Foi uma viagem em que nos passamos a conhecer melhor e cantámos. Chegados a Paris, eu fui encontrar-me com o Silas Cerqueira, numas instalações do CNRS, onde ele trabalhava, e depois com o José Oliveira e Helena Bruto da Costa que recebiam os viajantes para com eles tratarem de questões de natureza logística.

Para mim estava reservado o papel de responsável da componente estudantil da delegação, de cerca de 70 jovens vindos do país. Havia também a componente dos jovens trabalhadores de que penso ter sido responsável a Anabela Fino.
De Lisboa vinham connosco filhas de funcionáriosqueestavam na clandestinidade . A ManuelaPedro, a TeresaDias Coelho e a Lisa Veloso.

A Paris juntaram-se a nós jovens exilados ou emigrantes (Luís Cília, de Paris, uma camarada que foi depois durante muitos anos funcionária do Partido e membro da D.O.R. do Alentejo, e outro que também viria a ser funcionário do Partido, ambos emigrantes na Bélgica.

A viagem da gare de Saint-Lazare até Berlim decorreu com muito convívio até Frankfurt e depois da passagem para uma composição da Alemanha Ocidental onde nesse ambiente continuamos, apesar da frieza com que éramos tratados pelos funcionários da empresa de caminho-de-ferro. Até as fardas nos lembravam as das SS. Quando o pessoal do comboio mudou para uma tripulação da RDA, o ambiente desta era muito diferente. Saudaram-nos com largos sorrisos e distribuição de guloseimas.

Depois de chegarmos a Berlim seguimos de autocarro para uma escola, cujas salas foram adaptadas com beliches para receber os portugas. Aí ficamos té ao regresso, fazendo a viagem do metro para a zona da Alexanderplatz, da Unten der Linder (Avenida das Tílias, a mais importante avenida de Berlim, por onde se realizou o desfile dos participantes no Congresso no primeiro dia) ou das pontes sobre o rio Spree.

Perto do colégio consegui uma vez falar mais de uma hora com uma senhora idosa duma vivenda cujo filho tinha morrido na guerra já em combate com os soviéticos. Nem ela sabia português, francês ou inglês e eu nada sabia de alemão. Mas conversámos e fizemo-nos entender.

O desfile inaugural foi magnífico, durante horas. Com danças, muitas violas, tambores e concertinas.

Alegrias particulares tivemos à passagem dos jovens chilenos, do Vietname, da delegação portuguesa, das delegações cubana, espanhola e francesa, e de personalidades como Angela Davies, Yasser Arafat. Ou a emoção de uma exposição sobre Amílcar Cabral, assassinado em Janeiro desse ano em Conacri.

As zonas da cidade por onde andámos tinham uma actividade feérica com música em palcos, debates e minicomícios nos jardins, pequenos desfiles e muito convívio e namorico. Tudo a cair bem com a nossa maneira de ser e de estar na política.
 
Tiveram um convívio mais intenso connosco os jovens do Chile e da Guiné-Bissau/ Cabo Verde.

O Luís Cília, um dos mais animados nestas folias acabou por ganhar um concurso musical.

O que mais me impresssionou na RDA foram as pessoas, o seu nível cultural, a afabilidade na recepção. Entre jovens e na população mais adulta.
É certo que vivemos naqueles dez dias num ambiente muito próprio onde a atração foi facilitada, mesmo para quem, como eu, dando atenção a atenção a vários críticos dos países socialistas, estava atento à descoberta de deficiências do regime.
A recepção da FDJ foi extraordinária e, apesar daquele jeito das fardas azuis, descobri jovens como nós, muito diferentes uns dos outros, com certezas mas com mais aspirações além do que já tinham, e de que a maior parte dos jovens portugueses não podia beneficiar, libertos de tabus nas relações pessoais que então nos dominavam em Portugal. Um beijo apaixonado na rua e algumas carícias seriam em Lisboa um caso de polícia. Ali eram tão naturais como o amor. E vi mesmo casais homossexuais entre esses militantes da FDJ, coisa que para alguns de nós ainda seria perturbante.
“Frieden, Freundschaft, Solidarität” (Paz, Amizade, Solidariedade) nunca mais me saiu do ouvido.
Nunca fui impedido de circular por onde quisesse, incluindo no U-Bahn. Claro que os inquiri sobre a questão do muro e as razões que me avançaram pareceram-me então plausíveis, bem diferentes das invocadas na construção, trinta anos mais tarde, por Bill Clinton, Viktor Orban, ou Netanyhau, dos muros nos seus países. Vários troços do muro não tinham polícia e pareceram-me facilmente transponíveis.
Quanto à nossa delegação, era composta por jovens trabalhadores e estudantes, comunistas ou simpatizantes, com uma grande abertura de espírito e capacidade de conviver, entre si, e com as delegações com quem contactámos.
 

Foi para nós particularmente sentido o encontro com jovens dos 3 movimentos de libertação de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Seríamos uns duzentos ao todo num salão de uma instituição de que me não recordo. Eu disse umas palavras em nome dos portugueses, tendo o mesmo feito jovens dos três movimentos de libertação. Um deles foi o Sérgio Vieira do PAIGC. Pelo que julgo saber, foi a primeira vez que um tal encontro aconteceu no decurso da guerra colonial. Sensação para mim insólita e inusitada foi um beijo na boca que recebi de um soviético, que estava comigo na mesa, ainda por cima, com a barba dura por fazer. Brrrr!

Como a minha estada em Berlim coincidiu com o meu 26 anos, tive o privilégio de, com outros festivaleiros, que faziam anos nesses dias, almoçar no restaurante rotativo da bola da magnífica torre de TV!

No regresso, a partir de Paris, deixamos as imensas prendas nas mãos do José e Helena, em Paris, que nos acabariam por ser enviadas mais tarde. Saímos de França de novo em pequenos grupos. A mim calhou-me a companhia do saudoso Murad-Ali Mamadussen, que viria a ser secretário do presidente Samora Machel e que morreria com ele no desastre (?) do avião quando sobrevoava o território sul-africano.  Estávamos a chegar a Santa Apolónia e o Murad-Ali levantou a camisa revelando por baixo uma t-shirt com a efígie do Amílcar Cabral. Fiquei fora de mim e ele sorria!

De entre os portugueses da delegação lembro-me, além dos já referidos atrás, do Abílio Silva, e do Paco, do Instituto Industrial, da Sita Vales, da Faculdade de Direito, da Teresa Dias Coelho, estudante liceal, da Manuela Pedro, da Leonor Judas, professora, já falecida, Paulo Areosa Feio, do I.S. Técnico, Barbara Judas. Há semanas atrás decidimo-nos encontrar…44anos depois! Pusemos memórias em dia

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