Pequeno Bilhete de Exílio – Carlos Maria de Araújo

Pequeno Bilhete de Exílio

Se tua noite fosse a minha noite
e meu fosse o teu dia
se teu caminho fosse o meu caminho
e tua casa a minha
se teu pão e teu sal fossem os meus
e teu fosse o meu vinho
não choraria as lágrimas que choro
e a saudade não me queimaria.
Quando a tua vida começa
meu amigo
eu morro a minha morte, cada dia.

Carlos Maria de Araújo

Carlos Maria de Araújo segundo Jorge de Sena
   […]
   A sua obra muito breve é por certo das mais notáveis da poesia portuguesa que o desconhece ainda […]; e pode considerar-se representada pelos dois livros que publicou pouco antes de morrer. Poesia extremamente despojada e densa, de uma intensa severidade formal e de vigorosa emoção contida numa expressão lapidar, é bem a de um oficiante das trevas, dessas trevas que tão terrivelmente cobrem a vida e o mundo. Nos seus ritmos curtos e sincopados, sob os quais todavia flui oculta uma simplicidade quase sentimental, esta poesia significa, como poucas das recentes, uma fulgurante definição do exílio português, no que ele tem de amargo e de frustrado, como no que, nele, resiste a tudo e mesmo ao medo que o verso tenha de sê-lo na boca do poeta, qual este disse num dos seus mais belos poemas.

Este artigo encontra-se em: voar fora da asa http://bit.ly/2rrBBX5

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